Artigo de opinião

Publicado em Edição 13

Incertezas e oportunidades

O Futuro da Gestão de Risco

Há quase 50 anos, Gordon Moore, Diretor Executivo da Intel, notou que a velocidade dos processadores duplicava a cada dois anos. Rapidamente, os computadores, que já tinham sido do tamanho de frigoríficos, cabiam na palma da mão. Um eletrodoméstico comum dos dias de hoje tem mais capacidade de processamento que o módulo de alunagem da missão Apollo. Um telemóvel custava milhares nos anos 80 e hoje custa uma ou duas centenas de euros.

Em todos os aspetos, o mundo evolui a um ritmo nunca antes visto e de formas que poucos poderiam ter previsto. A globalização, a digitalização, a urbanização e as alterações climáticas colocam enormes desafios às empresas e a incerteza traz ainda mais desafios.

O setor da gestão de risco encontra‑se sob uma avalanche de novas ameaças, associadas essencialmente às alterações climáticas e ao desenvolvimento tecnológico.

De acordo com o Índice de Risco das Cidades (City Risk Index) do Lloyd’s, criado em colaboração com a Universidade de Cambridge, o risco de ciber‑ataque representa hoje uma séria ameaça à economia global. À medida que aumentam as interdependências e interligações e a sociedade depende cada vez mais da tecnologia, esta torna‑se mais vulnerável do que nunca. Além disso, as empresas continuam a digitalizar as suas operações, cadeias de fornecimento e transações comerciais; e surgem continuamente novas ameaças, desde as fugas de dados ou “sequestro de dados” (ransomware), ou danos em infraestruturas e redes de importância crítica. Por exemplo, na Europa, as nossas estimativas mostram que um tipo de ciber‑ameaca global —sequestro de dados para fins de extorsão financeira (ataque de ransomware) — custaria às empresas europeias até 75 mil milhões de dólares, sendo mais afetados os setores de produção, venda a retalho e serviços.

As ameaças de origem climática também representam uma preocupação crescente na Europa, onde se espera que a temperatura suba mais rapidamente do que noutras regiões1. Como consequência, muitas cidades europeias poderão ser financeiramente afetadas por riscos de natureza climática, incluindo secas, inundações, ondas de calor e de frio, que poderão reduzir a produtividade económica em cerca de 12.17 mil milhões de dólares. De facto, esta questão é particularmente crítica em Madrid, que se encontra sob elevada ameaça de seca, com uma perda de produtividade económica prevista de 122 milhões de dólares. A Agência Europeia do Ambiente estima que os recursos hídricos renováveis per capita tenham diminuído em 24% entre 1960 e 2010, especialmente na Europa do sul. Globalmente, Madrid, Barcelona e Valência poderiam perder até 7.34 mil milhões de dólares por ano, ao passo que em Lisboa uma inundação extrema poderia causar até 40 mil milhões de prejuízos.

No Lloyd’s, defrontamo‑nos com uma série de desastres naturais, incluindo furacões e incêndios na Califórnia e reagimos com rapidez. Hoje, é com satisfação que afirmamos que o nosso balanço é excecionalmente sólido, com uma situação líquida que ascende a €36.3 (£32.4) mil milhões (dezembro 2018: £28.2 mil milhões), tendo o rácio de solvência aumentado para 266% (dezembro 2018: 249%).

A solidez financeira do mercado Lloyd’s foi salientada pelos recentes ratings conferidos pelas agências de notação financeira, com um A+ Strong da Standard & Poor’s, A Excellent da AM Best e AA‑ Very Strong da Fitch.

Também lançámos uma estratégia abrangente — Future at Lloyd’s — concebida para criar o mais avançado mercado de seguros do mundo, que levará a uma maior agilidade por parte do Lloyd’s, permitindo enfrentar melhor os desafios e aproveitar as oportunidades.

A primeira versão da estratégia definiu seis ideias para melhorar o nosso método de trabalho, sustentadas por um enfoque acrescido no digital, nos dados e tecnologia para proporcionar mais vantagens aos clientes. O documento descreve as soluções, próximos passos e planeamento de execução, seguidos de uma série de entregas faseadas. A Fase I será entregue durante 2020, com o lançamento de uma central eletrónica de risco que poderá, com tempo, processar até 40% dos riscos do Lloyd’s. Adicionalmente, adotaremos uma solução que faz a triagem automática de sinistros para acelerar a sua resolução e permitir acessos simplificados aos nossos coverholders. Após estes passos iniciais, serão implementadas outras soluções, incluindo uma plataforma de riscos complexos para promover a inovação, uma estrutura que possibilite novas fontes de capital e um sistema simplificado para que os sindicatos possam aportar novos produtos e mais negócio.

Olhando para o futuro, sabemos que o mundo está em mudança mas por isso mesmo surgem novas oportunidades de crescimento. Novas tecnologias, tendências globais e alterações climáticas levam a que a necessidade de uma transferência de risco especializada assuma cada vez maior importância.

No mercado Lloyd’s, cumprimos um papel importante na mitigação de ameaças emergentes complexas. O nosso compromisso no sentido da regularização de todos os sinistros garantidos de forma rápida mostrou ser essencial para ajudar as comunidades a recuperar dos desastres que sofreram, aliviando o fardo de governos e contribuintes. Sem este seguro, as catástrofes podem ter um impacto muito maior sobre as economias e comunidades.

Na esfera digital, por exemplo, o seguro também é indispensável, especialmente porque o ciber‑seguro garante uma série de custos associados incluindo as quebras de produção, perda de produtividade e consumo, e ainda as perdas decorridas na cadeia de fornecimento. Considerando a procura crescente de produtos especializados em ciber‑risco na Europa, o Lloyd’s reafirma o seu compromisso de fornecer aos nossos parceiros europeus o apoio e proteção de que precisam para crescer e progredir. Tendo sido pioneiros na introdução da primeira apólice de ciber‑risco há mais de uma década e lançado o primeiro ciber‑seguro em Espanha, desde então nunca cruzámos os braços.

Para assegurar que continuaremos a desenvolver soluções de ponta de forma a ajudar os nossos clientes a protegerem‑se contra ameaças novas e emergentes, no Lloyd’s procuramos constantemente adaptar e aprofundar o nosso conhecimento sobre os riscos mais complexos que os nossos clientes enfrentam. Em consequência, acreditamos que a procura dos tipos de seguro especializado em que o Lloyd’s é pioneiro, tal como o ciber‑risco e a proteção contra riscos de origem climática, irá aumentar.

Assim sendo, e apesar das incertezas inerentes a um ambiente de risco em rápida mutação, o mercado do Lloyd’s continua a modernizar‑se, a evoluir e desenvolver‑se. Com o lançamento da estratégia Future at Lloyd’s, a nossa especialização e solidez financeira únicas, bem como a nossa nova base em Bruxelas, no coração da Europa, no mercado do Lloyd’s estamos prontos para apoiar os nossos clientes neste novo ambiente de risco.

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AUTORES

Juan Arsuaga

Juan Arsuaga

Diretor-Geral - Lloyd’s Iberia

É Diretor-geral do Lloyd’s Iberia, bem como presidente da ASASEL (Association of Spanish Underwriting Agencies of Lloyd’s, Associação das Agências Espanholas de Subscrição no Lloyd’s) e membro do Conselho Consultivo da AGERS (Associação Espanhola de Gestão de Riscos e Seguros). Já foi Presidente e CEO da Willis Portugal, bem como membro da Comissão Executiva, Diretor Comercial e Gestor de Rede Nacional da Willis Spain. Corretor qualificado, com mais de 25 anos de experiência, Juan Arsuaga é licenciado em Economia e Gestão de Empresas pela CEU e Universidade Complutense de Madrid. Também estudou nos EUA e RU, no St. Michael’s College e na London Business School.